No palco e na vida

por João Correia Filho


Uma primeira conversa com Alaíde Costa, que serviria para acertar os detalhes da sessão de fotos, foi desmarcada por um compromisso inadiável: ela havia conseguido um horário com a cabeleireira que frequenta há 18 anos, responsável por fazer suas famosas tranças, marca registrada da artista. Após um momento de decepção, surge a idéia: mas, então, por que não fotografá-la durante esse momento tão único, tão íntimo, tão representativo? Sem cerimônias, Alaíde aceitou a proposta e lá fui eu.

Em uma pequena casa no bairro paulistano do Rio Pequeno, os cabelos de Alaíde Costa se transformaram. No entanto, o lugar não tem o glamour e o luxo que se poderia imaginar para alguém que já pisa os principais palcos do Brasil há mais de cinco décadas. Ali, as paredes estão desgastadas, o espelho está sobre um armário improvisado e as pessoas passam concentradas em seus afazeres cotidianos.

Ironicamente, o que viria a ser a sessão de fotos oficial teve que ser cancelada. Alaíde Costa torcera o pé ao cair da escada de sua casa. Soube disso quando cheguei à casa da artista para a prometida conversa em que acertaria os detalhes. No entanto, dessa vez, não lamentei a mudança de planos. Fiz mais algumas imagens, claro, mas com a tranquilidade de quem sabia que o trabalho já estava concluído. Sorridente, apesar do transtorno de não poder andar, Alaíde serviu um café, conversou, sentou-se ao piano em que compõe suas músicas e esbanjou simpatia. Mais uma vez, ela estava à vontade, simples, despretensiosa, com a serenidade de quem não faz da vida um grande palco, mas faz do palco a sua vida.


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Cantora e compositora carioca, Alaíde Costa (1935) foi convidada por João Gilberto para participar de shows de bossa nova no fim dos anos 1950. Sua voz sussurrada tatuou o estilo e ajudou a firmá-lo na capital paulista. “Onde está você?” (Oscar Castro-Neves e Luvercy Fiorini), de 1964, é um de seus sucessos.














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