De bem com o passado

por Fernando Angulo


A ideia era fotografá-la em algum lugar que tivesse uma relação emocional com sua carreira. Ela mesma sugeriu a pizzaria Veridiana e a área de lazer do edifício onde mora, em São Paulo.

Com sorriso estampado e paciência para posar durante mais de três horas naquela tarde quente, a sessão com a carioca precursora da bossa nova em São Paulo foi recheada de histórias e lembranças: algumas sobre a rotina doméstica e outras sobre o início de carreira, os shows e a movimentação nos bares badalados da época.

Um deles era o antológico João Sebastião Bar, hoje a famosa pizzaria entre as ruas que a batiza e a Maria Antônia. Ali, enquanto era fotografada, Claudette resolvia uma pendenga. A memória afetiva não engolia o forno no lugar do palco onde cantou sobre o piano (sua marca registrada) ao lado de outros bossas na década de 1960.

A autorização para fotografá-la nas áreas comuns do edifício foi mera formalidade. A síndica, fã de Claudette, nunca lhe negaria esse pedido. Aos 72 anos, subiu e desceu as muretas que cercam o jardim como uma menina. Sorriu espontaneamente, mas também encenou, repetindo que não tinha jeito para aquilo. Bobagem! Claudette desfilou elegância em seu inseparável salto alto, adotado lá atrás para aumentar sua estatura em uns tantos centímetros. Mera vaidade. Sua música nunca precisou desse artifício.


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A carioca Claudette Soares (1937) é uma das responsáveis pela consolidação da bossa nova em São Paulo no início da década de 1960. Lançou artistas como Gonzaguinha e Taiguara, e seu repertório já contemplou música de protesto, romântica, bossa nova e MPB.














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