Telefone para Dóris

por Jefferson Dias


Ela estava na casa de amigas quando recebeu a ligação e o convite para participar do Pioneiras. Pediu que retornasse o telefonema às 22h do mesmo dia, quando então estaria em casa. Poucos minutos após o combinado, Dóris ouviu atentamente as explicações sobre o projeto e topou, mas relutou sobre o horário. Não queria ser fotografada pela manhã por temer a cara amassada de uma noite de sono, que não poupa nem mesmo uma rainha do rádio.

A produtora do projeto também havia sugerido fotos pela orla da praia, mas Dóris negou. Disse que já não se expõe tanto ao sol. No auge da mocidade passava horas nas areias de Copacabana, que somente eram interrompidas quando da praia avistava a toalha vermelha exposta na janela do apartamento onde morava com os pais. Era o código criado entre ela e a mãe para que pudesse atender os telefonemas de trabalho.

Entre a indecisão sobre local e hora, Dóris abriu as portas de sua casa em reforma. Pediu uma foto na mesma posição em que estava no porta-retrato exposto na sala. Era o antes e o depois da bela cantora que iniciou carreira no rádio aos 17 anos de idade.

Somente em São Paulo percebi a cor da sua roupa e a janela que forneceu luz para estas fotos. Era como se, em vez de ser chamada da praia, Dóris era quem abria a janela e convidava o público para conhecer sua história e música.


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Cultuada pelas novas gerações, a cantora carioca Dóris Monteiro (1934) começou a carreira em 1951. Intérprete privilegiada de samba e bossa nova, foi uma das primeiras a gravar Tom Jobim. Entre seus sucessos, “Coqueiro verde” (Roberto e Erasmo Carlos) e “É isso aí” (Sidney Miller).














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