Modéstia feita à mão

por Otavio Valle



Atrás de uma grande mulher tem sempre um grande homem. E assim que eu e Ricardo Ferreira chegamos em sua casa, Márcia servia almoço para o marido, o irreverente locutor esportivo Silvio Luiz. Logo depois, divertiu-se com os passarinhos que ficam na sala, e somente então subimos as escadas para clicar no ateliê.

No começo da conversa, a artista já me advertiu: “Eu sou intérprete, não cantora! Cantora é quem segue a partitura. Eu interpreto”. Márcia cumpriu como ninguém seu papel. Imortalizou nada menos que “Ronda”, de Paulo Vanzolini, e “Eu e a brisa”, de Johnny Alf. Impossível pensar nestas canções sem a voz de Márcia.

Mas hoje ela está mais calma que uma brisa e muito menos ronda a cidade noite afora. Márcia emprega seus dons artísticos em trabalhos manuais. No enorme ateliê que montou em sua casa, faz álbuns, caixas, porta-trecos, agendas e porta-CDs. Tudo de maneira artesanal e com material reciclado. Um trabalho bonito e impecável, que já rendeu até encomendas de grandes empresas. No fim da sessão fotográfica, perguntei sobre a carreira musical. Ela brincou: “Não tenho feito muita coisa. Tudo que eu fiz na música foi no século passado. Neste século somente a homenagem aos 100 anos do Cartola”. Só? É modéstia.


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Nascida em São Paulo, Márcia (1943) começou ainda adolescente como cantora da Orquestra de Erlon Chaves, cantou em casas noturnas, participou de festivais na década de 1960. Firmou-se como uma das melhores intérpretes de Johnny Alf, lançou três álbuns marcantes com Eduardo Gudin e Paulo Cesar Pinheiro e, com Elton Medeiros, homenageou Cartola em show e disco.














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